Quinta-feira, 8 de Dezembro de 2011

A Duas Vozes: uma interpretação do eterno mistério da vida

Arieka, uma jovem virgem que parece ser dotada de dons parapsíquicos, na interpretação dos que a rodeiam e que assistem à sua rebeldia contra a ordem instituída na sociedade do seu tempo, foi confiada pelos pais, que não conseguiram casá-la conforme os costumes da época, ao serviço do santuário de Delfos, o mais sagrado oráculo da Grécia antiga. Os sessenta anos da sua vida como profetisa é-nos transmitida retrospetivamente pela própria, que nos descreve a sua estranha vida como Pítia, a Primeira-Dama e voz do deus Apolo, de que ela é o verdadeiro médium. Delfos é um santuário que, como os demais, vivia dos donativos dos crentes e é "com a boca rasgada" de equívocas profecias que ela transmite sentada na trípode de bronze do santuário colocado sob o templo, à mercê do deus, do sacerdote e do povo, que ela assistiu ao declínio de Delfos e da sua influência no mundo.
Os mistérios dos oráculos, a que os seus dons serviram religiosamente, levantam-lhe dúvidas existenciais que ela teve de enfrentar corajosamente durante toda a sua vida. A sua condição feminina, aliada à sua clarividência como sacerdotisa, que lhe valeu o acesso à sabedoria guardada na famosa biblioteca de Delfos, acabou por ser um refúgio das fragilidades humanas que a perturbavam. O próprio Grande Sacerdote e as suas fraquezas humanas perturbavam-na, embora ela tivesse conseguido entendê-lo como um grande amigo que ele se revelou, de uma cultura e inteligência excecionais. Sendo um ateniense de gema, envolveu-se em conspirações contra os romanos, o que desencadeou a sua humilhação e a desgraça de Delfos.
O romance, que foi deixado inacabado pelo súbito falecimento de William Golding em 1993, é uma obra muito bem estruturada e de conteúdo extraordinário do ponto de vista psicológico e histórico. O mais interessante é o reconhecimento da clarividência da condição feminina, pouco habitual nas obras do autor.

Uma obra que nos faz refletir sobre a fragilidade humana e a sua tendência do homem em acreditar que pode proteger-se do desconhecido através da religiosidade. Como a história da humanidade nos tem mostrado, a religião tem-se aproveitado desse pavor do desconhecido mas não tem resolvido os males da humanidade. Infelizmente, até nesse campo o ser humano mostra a sua faceta negra.

William Gerald Golding nasceu a 19 de setembro de 1911 na aldeia de St. Columb Minor, na Cornualha. Filho de um professor primário de fortes entusiasmos políticos e de uma ativista dos direitos das mulheres, começou a escrever precocemente, com apenas sete anos de idade. Fez os estudos secundários na Marlborough Grammar School, ingressou no Brasenose College da Universidade de Oxford, com o intuito de cumprir o desejo paterno e versar Ciências da Natureza, mas dois anos depois seguiu a sua verdadeira vocação e pediu transferência para Literatura Inglesa.
Em 1934, ainda estudante, publicou o seu primeiro livro, uma compilação de poemas intitulada Poems. No ano de 1939 mudou-se para Salisbury, onde passou a lecionar Inglês na Bishop Wordsworth's School.
Na II Guerra Mundial alistou-se na Real Armada Britânica, ascendendo ao posto de comandante de um torpedeiro. Presenciou o afundamento do couraçado alemão Bismarck e o desembarque na Normandia.
Finda a guerra, retomou o ensino e a escrita. Em 1954, publicou o seu primeiro romance, Lord Of The Flies (O Senhor das Moscas), que se tornou num sucesso de vendas imediato, sobre um grupo de crianças evacuadas de Inglaterra por causa de uma guerra nuclear que, chegando a uma ilha de coral, formam a sua própria sociedade, que começa por ser solidária e justa para se tornar gradualmente uma autêntica anarquia.. Seguiram-se, entre outros volumes, The Inheritors (1955), obra que remete à destruição dos homens de Neanderthal pelos Cro-Magnon, Free Fall (1959), The Spire (1964), retrato lúcido da monomania humana, Darkness Visible (1979) e Rites Of Passage (1980, Ritos de Passagem).
Investido cavaleiro em 1988, William Golding foi vencedor de inúmeros prémios, entre os quais o prestigiado Nobel da Literatura, em 1983. Faleceu em Perranarworthal a 19 de junho de 1993.

Terça-feira, 6 de Dezembro de 2011

Aveiro, a Veneza do Norte






































 

"Desde sempre ligada a actividades económicas, Aveiro teve na produção de sal e no comércio naval as suas mais valias. Valioso como bem de troca, o sal, provavelmente já explorado em tempos romanos, está comprovado documentalmente a partir de 959, no testamento da Condessa Mumadona Dias ao Cenóbio [mosteiro] de Guimarães.
Foi nesse mesmo testamento que surge a mais antiga forma que se conhece do topónimo Aveiro, em que Mumadona Dias doa em testamento toda a região ao mosteiro de Guimarães "Suis terras in Alauario et Salinas".


Nos inícios do século XV, a edificação de um pano de muralhas em torno do núcleo urbano espelha o prestígio e crescimento que Aveiro teria alcançado. Posteriormente instalar-se-iam as instituições religiosas e assistenciais que, durante séculos, dariam fulgor à urbe ajudando-a a ultrapassar os momentos menos bons vividos, nos séculos XVII e XVIII, com o progressivo assoreamento da barra. Será a abertura artificial desta, concretizada em 1808, que devolverá, paulatinamente, o dinamismo a Aveiro, marcando o início de uma nova época.


A preponderância de imóveis dos séculos XIX e XX reflecte bem essa fase, revelando também o desejo de acompanhar o gosto da época, evidente na decoração com apontamentos Arte Nova de alguns edifícios, repetidos noutros locais da região, ou nas linhas depuradas de uma Art Déco e de um Modernismo impulsionado pelo Estado Novo. Hoje o desafio está no campus universitário, palco de actuação dos grandes arquitectos nacionais.


Paredes meias com o progresso, subsiste a tradição em algumas vivências etnográficas, bem como na arquitectura do meio rural da região, onde se fundem várias vertentes da construção tradicional portuguesa materializadas na casa gandaresa. Aveiro conserva também no Alboi e, em particular, no bairro da Beira Mar casas térreas revestidas a azulejo, testemunhos vivos de antigos marnotos [salineiros] e pescadores fiéis devotos de S. Gonçalinho e S. Roque.


À sua frente... a Ria com toda a beleza da sua paisagem mesclada de ilhotas e esteiros a fervilhar biodiversidade. Depois, o cordão dunar de S. Jacinto com a sua reserva, santuário da natureza, e a pequena povoação marcada pela faina lagunar, pela arte xávega e pela longínqua pesca do bacalhau nos mares frios da Terra Nova.


A preponderância da indústria cerâmica na região não é, apenas, um reflexo dos avanços tecnológicos, resultando antes de uma longa tradição produtiva favorecida pela constituição geológica da região e que remonta, pelo menos, ao período tardo-romano/medieval como o evidenciam os fornos cerâmicos de Eixo.

Hoje, região em franco crescimento económico consegue aliar os testemunhos do passado às exigências actuais, envolvendo a Universidade de Aveiro, num caminho para o desenvolvimento sustentável que garantirá o futuro."

* http://www.cm-aveiro.pt/www//Templates/TabbedContainer.aspx?id_class=1391&divName=1378s1391

Sábado, 3 de Dezembro de 2011

A Trilogia de Nova Iorque: mistérios da nossa identidade

Nos três contos que compõem "A Trilogia de Nova Iorque", Paul Auster conduz a vida das personagens através de incríveis coincidências e acasos misteriosos, por direções que nos deixam atónitos mas que acompanhamos quase que adivinhando o seu percurso e com a maior aceitação, pois tudo é possível numa imensa metrópole cosmopolita.
As personagens de "A Cidade de Vidro", "Fantasmas" e "O Quarto Fechado" têm uma característica comum, que é serem homens independentes e solitários por razões diversas. O primeiro, um escritor, perdeu a mulher e o filho num acidente e deixa-se seduzir pelo papel de detetive devido a um telefonema equívoco, de tal forma que esquece a sua vida e se torna a sombra do homem que vigia, até perder totalmente a sua própria identidade e desaparecer como pessoa. O segundo é um detetive e a vigilância apertada que faz a um escritor num apartamento em frente leva-o a integrar-se intensamente na sua vida rotineira, pelo que adivinha que conhece antecipadamente cada passo que ele vai dar. Acaba por matá-lo, lendo o livro que ele estava a escrever e desaparecendo para um destino desconhecido. O terceiro é compelido a "herdar" a vida de um amigo de infância, ao ser contactado pela mulher que tinha sido abandonada com o filho sem qualquer aviso. Casa-se com ela e publica o que o amigo tinha escrito, por considerar a obra de grande qualidade. Mas a sua obsessão por decifrar a vida do amigo de infância leva-o a perder o norte dos seus dias e, apesar de encontrá-lo contra a sua vontade, não consegue impedir que ele termine a sua auto-destruição.
Cada um de nós é um mistério e é muito ténue o véu que nos separa do equilíbrio que consideramos normal em sociedade. Estas três personagens, com as suas ações coerentes no conjunto, fazem-nos estremecer por vezes, ao pensarmos se em alguma circunstância poderíamos atingir o mesmo limite e perder a linha de Ariadne que julgamos nortear a nossa vida. Afinal, grande parte de nós somos seres solitários, perdidos nos nossos pensamentos e mistérios que não confessamos a ninguém, escondidos atrás de máscaras para que os outros não invadam a nossa verdadeira identidade. É a lei da selva, cada vez mais real nos tempos difíceis que a humanidade atravessa...
 
* Paul Auster é escritor, argumentista, tradutor, ensaísta, realizador e muito mais, sendo considerado um nome cimeiro da literatura dos nossos dias. Nascido em 1947 em Newark, frequentou a Universidade de Columbia e residiu durante quatro anos em França, antes de se radicar em Nova Iorque. Distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura 2006, Paul Auster foi nomeado Comendador da Ordem das Artes e das Letras de França em 2007. Em 1993 a sua obra Leviathan recebeu o Prémio Médicis para o melhor romance estrangeiro. As Loucuras de Brooklyn recebeu em 2006 o Prémio Qué Leer dos Leitores para o melhor romance estrangeiro, distinção também dada a A Noite do Oráculo em 2004. A sua obra encontra-se traduzida em trinta línguas.

Sábado, 12 de Novembro de 2011

Uma música constante

O romance tem como pano de fundo a música clássica, que nos envolve com emoção em todo o enredo através da musicalidade das palavras. A narração na primeira pessoa da história de amor de dois músicos através do personagem principal, Michael, transmite-nos a devoção à música do quarteto a que pertence, que tenta atingir a perfeição nas suas interpretações. Além de ensaios frequentes, vão ao ponto de pesquisar como adaptar as cordas de uma viola de molde a recriar os sons que pretendem na execução de temas de Beethoven, Bach, Brahms, Haydn, Mozart ou Schubert. A pesquisa de um quinteto para cordas de Beethoven pouco conhecido, em allegro, é outro condimento que salienta esta devoção pela música e que nos encanta.


Michael e Julia conheceram-se em Viena, onde foram estudar música com um professor de renome, de tal forma exigente e arrogante nas suas opções musicais que levou o jovem à depressão. Michael tinha as suas tendências musicais bem definidas, pelo que desistiu dos estudos e regressou a Londres, abandonando Julia, a quem só escreveu após meses de silêncio, não obtendo então qualquer resposta. Dez anos depois, reencontram-se num concerto depois de se terem visto em autocarros que seguiam rumos diferentes, pelo que Julia não resistiu ao apelo veemente de Michael e foi falar-lhe no final do espetáculo. A paixão que os unia não desaparecera, como todos os amores mal resolvidos, mas a situação é agora complicada. Julia é casada e tem um filho, além de ter um grave problema: estava a ficar surda e o marido tinha-a acompanhado com toda a dedicação possível, convencendo-a a continuar a tocar piano e a aprender a leitura dos lábios, sem dar a conhecer ao público o seu estado.

Michael é violinista e toca um Tononi, ao qual atribui um significado especial na sua vida e que lhe foi emprestado por uma velha amiga que o ensinou a tocar quando criança, desejo despertado pela leitura que ela lhe fez do poema "The Lark Ascending" (O Voo da Cotovia), que inspirou Vaughan Williams a escrever a conhecida peça musical. A descrição da sintonia da entrega à execução das melodias envolve-nos profundamente, especialmente quando Julia é convidada para se juntar ao quarteto para tocarem em Viena a peça Quinteto em lá maior opus 114, "A Truta", de Schubert. .


A escolha da capa foi feliz: Veneza era um destino de viagem planeado pelo casal, que consegue realizar o seu desejo mais tarde mas que, ironia do destino, acaba por ser o local onde Julia decide terminar definitivamente a relação. Michael sente-se perdido mas teve no final uma grata compensação: o Tononi foi-lhe deixado em testamento pela sua velha amiga, com quem passava horas a conversar quando ia visitar o pai. Teve a certeza que a música era a sua salvação quando ouviu Julia em concerto a solo tocando  maravilhosamente como sempre, a peça incompleta Arte da Fuga, de Bach, sem pauta.

O titulo traduz a importância da música na vida de Michael, assim como na de Julia, apesar da surdez que a atingiu, mas também na dos restantes membros do quarteto e, sem dúvida nenhuma, na da maior parte dos seres humanos. O trinado de uma simples cotovia já fazia as delícias de Michael quando criança e se estendia no campo à espera que elas começassem a cantar.

O autor, Vikram Seth, acrescentou uma perfeição ética ao romance ao realizar aturadas pesquisas sobre música clássica, nomeadamente sobre o problema da afinação variante, junto de músicos, compositores, fabricantes, professores, críticos e mesmo sobre os locais que descreveu e a aprendizagem da leitura de lábios. 

Vikram Seth nasceu em 20/06/1952, em Calcutá, Índia. É poeta e romancista e este é o seu terceiro romance (1999). O primeiro foi uma coletânea de poesias, Mappings (1980), seguindo-se o livro From heaven lago: travels through Tibete e Xinjiang (1983), os romances The Golden Gate (1986) e A suitable boy (1993), que lhe valeu três prémios: Irish Times International Fiction Prize, Commonwealth Writers Prize (Overall Winner, Best Book) e WH Smith Literary Award. Escreveu ainda um livro para crianças, Beastly Tales (1991) e um libretto, Arion and the dolphin (1994). O último romance é Two lives (2005), de memórias familiares.
Não resisto a registar aqui a ligação no youtube aos versos e à peça  musical The Lark Ascending, bem como de A Truta e de a Arte da Fuga:
http://www.youtube.com/watch?v=wKg1-VuEO54
http://www.youtube.com/watch?v=b5yPdAjzihY
http://www.youtube.com/watch?v=wlxVTpEyMEw
http://www.youtube.com/watch?v=T8xFtRS7aTs

Domingo, 2 de Outubro de 2011

A Fúria das Vinhas, uma história sobre a Ferreirinha e o vinho do Douro

Um romance interessante cujo enredo conta basicamente a história da célebre Ferreirinha, ou seja, Antónia Adelaide Ferreira, famosa pela sua luta pelas vinhas do Douro e pelo seu espírito indomável, que resistiu a todas as pressões dos poderosos de então. É a epopeia da luta contra a filoxera, uma praga que  ia destruindo definitivamente as vinhas na região na segunda metade do século XIX.
O personagem que dinamiza a história com a sua inteligência e irreverência carismáticas, Vespúcio Ortigão, um bacharel detetive que perseguiu um serial killer, confrontando-se com as superstições e crenças ancestrais da população que temia o flagelo da praga e dos crimes como um castigo dos céus se tratasse. Na altura, o detetive, formado em Direito, sorvia com inusitada paixão as primeiras técnicas e tentativas de criação de um método para a investigação criminal que se desenvolviam na Europa, incluindo até o primeiro livro de Conan Doyle e o herói dos seus livros, Sherlock Holmes.
Francisco Moita Flores é um especialista em criminologia e é considerado um dos melhores argumentistas portugueses, sendo a mais célebre a série "A Ferreirinha".
Lendo o livro, não pude deixar de pensar que, infelizmente, o espírito português continua ainda muito arreigado a tradições e costumes retrógrados, herança pesada da ditadura salazarista, que não permitiu ainda que a inteligência dos melhores consiga subverter a situação caótica que se vive atualmente no país. Faltam espíritos curiosos e indomáveis como os de Vespúcio Ortigão e da Ferreirinha, de quem não se pode esquecer a bondade infinita para com o seu próximo.