Sábado, 12 de Novembro de 2011

Uma música constante

O romance tem como pano de fundo a música clássica, que nos envolve com emoção em todo o enredo através da musicalidade das palavras. A narração na primeira pessoa da história de amor de dois músicos através do personagem principal, Michael, transmite-nos a devoção à música do quarteto a que pertence, que tenta atingir a perfeição nas suas interpretações. Além de ensaios frequentes, vão ao ponto de pesquisar como adaptar as cordas de uma viola de molde a recriar os sons que pretendem na execução de temas de Beethoven, Bach, Brahms, Haydn, Mozart ou Schubert. A pesquisa de um quinteto para cordas de Beethoven pouco conhecido, em allegro, é outro condimento que salienta esta devoção pela música e que nos encanta.


Michael e Julia conheceram-se em Viena, onde foram estudar música com um professor de renome, de tal forma exigente e arrogante nas suas opções musicais que levou o jovem à depressão. Michael tinha as suas tendências musicais bem definidas, pelo que desistiu dos estudos e regressou a Londres, abandonando Julia, a quem só escreveu após meses de silêncio, não obtendo então qualquer resposta. Dez anos depois, reencontram-se num concerto depois de se terem visto em autocarros que seguiam rumos diferentes, pelo que Julia não resistiu ao apelo veemente de Michael e foi falar-lhe no final do espetáculo. A paixão que os unia não desaparecera, como todos os amores mal resolvidos, mas a situação é agora complicada. Julia é casada e tem um filho, além de ter um grave problema: estava a ficar surda e o marido tinha-a acompanhado com toda a dedicação possível, convencendo-a a continuar a tocar piano e a aprender a leitura dos lábios, sem dar a conhecer ao público o seu estado.

Michael é violinista e toca um Tononi, ao qual atribui um significado especial na sua vida e que lhe foi emprestado por uma velha amiga que o ensinou a tocar quando criança, desejo despertado pela leitura que ela lhe fez do poema "The Lark Ascending" (O Voo da Cotovia), que inspirou Vaughan Williams a escrever a conhecida peça musical. A descrição da sintonia da entrega à execução das melodias envolve-nos profundamente, especialmente quando Julia é convidada para se juntar ao quarteto para tocarem em Viena a peça Quinteto em lá maior opus 114, "A Truta", de Schubert. .


A escolha da capa foi feliz: Veneza era um destino de viagem planeado pelo casal, que consegue realizar o seu desejo mais tarde mas que, ironia do destino, acaba por ser o local onde Julia decide terminar definitivamente a relação. Michael sente-se perdido mas teve no final uma grata compensação: o Tononi foi-lhe deixado em testamento pela sua velha amiga, com quem passava horas a conversar quando ia visitar o pai. Teve a certeza que a música era a sua salvação quando ouviu Julia em concerto a solo tocando  maravilhosamente como sempre, a peça incompleta Arte da Fuga, de Bach, sem pauta.

O titulo traduz a importância da música na vida de Michael, assim como na de Julia, apesar da surdez que a atingiu, mas também na dos restantes membros do quarteto e, sem dúvida nenhuma, na da maior parte dos seres humanos. O trinado de uma simples cotovia já fazia as delícias de Michael quando criança e se estendia no campo à espera que elas começassem a cantar.

O autor, Vikram Seth, acrescentou uma perfeição ética ao romance ao realizar aturadas pesquisas sobre música clássica, nomeadamente sobre o problema da afinação variante, junto de músicos, compositores, fabricantes, professores, críticos e mesmo sobre os locais que descreveu e a aprendizagem da leitura de lábios. 

Vikram Seth nasceu em 20/06/1952, em Calcutá, Índia. É poeta e romancista e este é o seu terceiro romance (1999). O primeiro foi uma coletânea de poesias, Mappings (1980), seguindo-se o livro From heaven lago: travels through Tibete e Xinjiang (1983), os romances The Golden Gate (1986) e A suitable boy (1993), que lhe valeu três prémios: Irish Times International Fiction Prize, Commonwealth Writers Prize (Overall Winner, Best Book) e WH Smith Literary Award. Escreveu ainda um livro para crianças, Beastly Tales (1991) e um libretto, Arion and the dolphin (1994). O último romance é Two lives (2005), de memórias familiares.
Não resisto a registar aqui a ligação no youtube aos versos e à peça  musical The Lark Ascending, bem como de A Truta e de a Arte da Fuga:
http://www.youtube.com/watch?v=wKg1-VuEO54
http://www.youtube.com/watch?v=b5yPdAjzihY
http://www.youtube.com/watch?v=wlxVTpEyMEw
http://www.youtube.com/watch?v=T8xFtRS7aTs

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