Nos três contos que compõem "A Trilogia de Nova Iorque", Paul Auster conduz a vida
das personagens através de incríveis coincidências e acasos misteriosos, por direções que nos deixam atónitos mas que acompanhamos quase que adivinhando o seu percurso e com a maior aceitação, pois tudo é possível numa imensa metrópole cosmopolita.
As personagens de "A Cidade de Vidro", "Fantasmas" e "O Quarto Fechado" têm uma característica comum, que é serem homens independentes e solitários por razões diversas. O primeiro, um escritor, perdeu a mulher e o filho num acidente e deixa-se seduzir pelo papel de detetive devido a um telefonema equívoco, de tal forma que esquece a sua vida e se torna a sombra do homem que vigia, até perder totalmente a sua própria identidade e desaparecer como pessoa. O segundo é um detetive e a vigilância apertada que faz a um escritor num apartamento em frente leva-o a integrar-se intensamente na sua vida rotineira, pelo que adivinha que conhece antecipadamente cada passo que ele vai dar. Acaba por matá-lo, lendo o livro que ele estava a escrever e desaparecendo para um destino desconhecido. O terceiro é compelido a "herdar" a vida de um amigo de infância, ao ser contactado pela mulher que tinha sido abandonada com o filho sem qualquer aviso. Casa-se com ela e publica o que o amigo tinha escrito, por considerar a obra de grande qualidade. Mas a sua obsessão por decifrar a vida do amigo de infância leva-o a perder o norte dos seus dias e, apesar de encontrá-lo contra a sua vontade, não consegue impedir que ele termine a sua auto-destruição.
Cada um de nós é um mistério e é muito ténue o véu que nos separa do equilíbrio que consideramos normal em sociedade. Estas três personagens, com as suas ações coerentes no conjunto, fazem-nos estremecer por vezes, ao pensarmos se em alguma circunstância poderíamos atingir o mesmo limite e perder a linha de Ariadne que julgamos nortear a nossa vida. Afinal, grande parte de nós somos seres solitários, perdidos nos nossos pensamentos e mistérios que não confessamos a ninguém, escondidos atrás de máscaras para que os outros não invadam a nossa verdadeira identidade. É a lei da selva, cada vez mais real nos tempos difíceis que a humanidade atravessa...* Paul Auster é escritor, argumentista, tradutor, ensaísta, realizador e muito mais, sendo considerado um nome cimeiro da literatura dos nossos dias. Nascido em 1947 em Newark, frequentou a Universidade de Columbia e residiu durante quatro anos em França, antes de se radicar em Nova Iorque. Distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias de Literatura 2006, Paul Auster foi nomeado Comendador da Ordem das Artes e das Letras de França em 2007. Em 1993 a sua obra Leviathan recebeu o Prémio Médicis para o melhor romance estrangeiro. As Loucuras de Brooklyn recebeu em 2006 o Prémio Qué Leer dos Leitores para o melhor romance estrangeiro, distinção também dada a A Noite do Oráculo em 2004. A sua obra encontra-se traduzida em trinta línguas.

E eu que não conheço nada de Paul Auster. Imperdoável!
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